NEW AVENGERS, ANO UM
(Uma breve retrospectiva dos primeiros 13 números da série-pilar da Marvel)

Aclamada como uma nova e excitante direcção para o super-grupo estandarte da Marvel Comics por uns, vilipendiada como uma mera manobra de marketing para outros, a série “New Avengers” é um sucesso comercial indiscutível, transformando os “Avengers” numa força ao nível dos populares “X-Men” ou da linha “Ultimate”.

Nascida das cinzas da anterior formação, desmantelada no arco “Avengers: Disassembled”, a controvérsia nasceu da composição da equipa: Homem-Aranha, Wolverine, Capitão América, Homem de Ferro, Mulher-Aranha, Luke Cage, Sentinela e Ronin. Antes de sequer se poder ler um único número da nova série, já muitos a condenavam como uma mera forma de vender livros juntando personagens populares por seu próprio direito e que já estão sobre expostos, como é o caso do Homem-Aranha e Wolverine, sendo que este último está presente em tantas séries que dificilmente a sua continuidade no Universo Marvel se poderia manter coerente.

Pessoalmente, aguardei com bastante expectativa esta série. Nunca coleccionei a série ”Avengers”, mas ver a capa do número um na “Previews” excitou o “comic book geek” que há em mim, e resolvi experimentar. 13 números e outros tantos meses depois (mais ou menos), resolvi partilhar convosco os resultados dessa experiência, analisando arco por arco este primeiro ano.

O facto de “New Avengers” contar como argumentista Brian Michael Bendis, um dos mais populares e talentosos argumentistas de comics, e desenhistas do calibre de David Finch ou Steve McNiven, é sinal de que esta série foi encarada, do ponto de vista editorial, como um produto de qualidade, aparte dos seus evidentes fins comerciais. Foi esse objectivo alcançado?

No primeiro arco, “Breakout!” (“New Avengers” #1 a 6), o vilão Electro é contratado por uma força misteriosa para soltar alguém da prisão “The Raft”, provocando para esse efeito um motim e libertando mais de uma centena de super-vilões. Por um conjunto de circunstâncias que acabará por os levar até à Terra Selvagem, um grupo de heróis forma os New Avengers para conter a situação, recapturar os evadidos e desmascarar a misteriosa conspiração que pôs estes acontecimentos em marcha…
 
O primeiro arco inicia-se com uma situação explosiva: um motim de proporções gigantescas, heróis aprisionados e em perigo, o Homem-Aranha desmascarado e brutalmente espancado por vários dos seus inimigos…
Bendis constrói uma situação de alta tensão e estabelece uma teia de elementos dramáticos que envolvem o leitor, combinando mistério, terror, acção e o verdadeiro desespero donde surgirá o mais nobre e abnegado heroísmo. Sem dúvida, um início digno de uma equipa como os “Avengers”, com ressonâncias à criação original do grupo há 30 anos atrás. Os momentos de antologia sucedem-se neste arco: o “despertar” do Sentry, a morte de Carnage, a criação da equipa (“…the team comes together. And it´s done”.). Neste primeiro arco, Bendis lança as fundações da série, justificando porque eles tem de criar novamente a equipa após o horrível fracasso da anterior, porque têm de se manter juntos, e porque certos elementos, como Wolverine, são necessários. Bendis é soberbo na caracterização das personagens, sendo-lhes fiel (o seu Homem-Aranha é o mais bem escrito na Marvel deste momento) mas acrescentando pequenos toques que contribuem para o seu realismo e compreensão. Os diálogos são deliciosos e estaladiços como pipocas (a interacção entre o Homem-Aranha e Luke Cage é impagável, como no “confronto” com Electro).

Os acontecimentos traumáticos do arco “Disassembled” encontram ressonância nesta série, motivando e condicionando psicologicamente as personagens, o que cria um agradável sentido de continuidade. Aliás, Bendis refere-se, nesse âmbito, a outras séries Marvel que escreve, como é o caso do confronto Luke Cage / Purple Man, cujo verdadeiro alcance escapará a quem não tiver lido a série “Alias”. Contudo, esse elemento não estorva a compreensão global da história.

Como pontos menos positivos deste arco, ressaltam a resolução demasiadamente abrupta e convencional do motim, e a viagem até à Terra Selvagem que me pareceu também mal explorada, sendo que talvez este arco devesse ter sido separado em dois, e a parte relativa à Terra Selvagem desenvolvida de uma forma autónoma e diferente. Está bem que a viagem resulta do ocorrido no motim, mas esse acontecimento constituiu obviamente um catalizador para tudo o que irá ocorrer na série durante os tempos mais próximos, e as suas consequências continuam a ser tema de arcos posteriores.

Na arte, o trabalho desenvolvido está à altura do texto. O estilo sombrio e violento do tema do motim é bem servido pelos lápis fortes e agressivos de Finch e respectiva finalização de Miki e D´Armata. Pessoalmente, os desenhos de Finch não são dos meus favoritos, porque os acho um pouco rigídos, ideais para poses mas pouco fluidos na acção, mas não deixo de reconhecer a sua indiscutível qualidade. E a cada número que desenha, é possível notar uma maior adaptação ás exigências específicas desta série.
 
No segundo arco, “The Sentry” (“New Avengers” #7 a 10), a equipa tem de lidar com um dos vilões em fuga de “The Raft” e com os problemas psicológicos do seu membro mais poderoso, o Sentry. Mas, para esse efeito, tem de recorrer à ajuda de vários heróis Marvel, afim de evitar que o alter-ego maléfico do Sentry, The Void, destrua o mundo…

Bendis continua neste arco a desenvolver a história central da série, cujos pilares lançou na história anterior. Como já havia acontecido, a caracterização das personagens é extremamente exacta (Não me canso de louvar o seu Homem-Aranha) e interessante, e a interacção entre os vários membros da equipa é dinâmica e inovadora. A sua explicação para os problemas do Sentry, o tema principal deste arco, é plena de reviravoltas e muito intrigante, bem como a revelação da existência de um “conselho superior” de personagens Marvel. A continuidade com outros acontecimentos do Universo da Casa de Ideias está presente, através de referências como as que surgem na conversa entre Wolverine e o Homem de Ferro.

A arte de Steve McNiven, finalizada por Morales e Hollowell, é, para mim, o ponto forte desta história, e faz-me desejar que fosse ele o desenhador principal. Limpa, detalhada, dinâmica e muito bonita, é praticamente perfeita.

Um arco muito interessante, que talvez pudesse ser um pouco mais curto, mas a profundidade da análise dos intervenientes e o facto de estarmos ainda em plena fase de criação e desenvolvimento da equipa justificam essa opção do argumentista.

O último arco deste primeiro ano “Ronin” (“New Avengers” #11 a 13) debruça-se sobre um novo membro dos Avengers, Ronin. Os New Avengers, em perseguição do Samurai de Prata, outro evadido, viajam para o Japão, onde enfrentarão ninjas e um possível traidor na equipa…

Para mim, este é o arco mais fraco da série até agora. A história está demasiadamente vista, principalmente para os fãs do Wolverine (que curiosamente não aparece neste arco, o que justifica a participação de Ronin), a acção não é muito excitante, pois a oposição não está á altura dos New Avengers (Capitão América, Luke Cage, Homem-Aranha, Homem de Ferro e Mulher-Aranha contra…ninjas?) eliminando qualquer hipótese de tensão dramática. O tema da conspiração continua a correr por detrás da história, o que é positivo para a progressão da série. O tema do ”traidor na equipa” pode ser interessante, mas já está muito batido, e penso que Bendis devia “arrumar” este subplot o mais rapidamente possível.

A descoberta da identidade de Ronin é outro petardo molhado, na minha opinião. Este mistério é outra parte fulcral deste arco, e a antecipação criada ao longo da história resulta num anti-climax com a revelação que o misterioso herói é … um personagem obscuro para quem não tenha lido uma das outras séries escritas por Bendis, cuja auto-referência aqui resulta mal, ao contrário de outras alusões que já referi acima.

A arte de David Finch regressa, aplicando-se o que já foi dito acima. A rigidez do seu desenho ressalta na comparação das suas sequências de acção com as de McNiven na história anterior, mas o seu estilo é forte o suficiente para se impor, e a evolução que já referi continua a fazer-se sentir de forma bastante acentuada.

No todo, considero que “New Avengers” é uma série com uma qualidade bastantes furos acima do que seria de esperar num produto formatado para o sucesso comercial. Bendis, mesmo nos seus momentos menos felizes, produz histórias com uma caracterização e diálogos brilhantes, que aqui são bem apoiados por desenhistas de qualidade e bem adaptados ao estilo da história. Falta somente uma bela saga cósmica, da envergadura de uma guerra Kree/Skrull, com vilões que testem a equipa até ao limite, que contribua para criar mais um capítulo lendário na história destas grandes figuras dos comics.

Pedro Pacheco
                                                                                                                                                                                         


DMZ

Esta nova série é uma das novas propostas da no ramo da banda desenhada americana de temática adulta. Os primeiros dois números já saíram e mostram-nos uma América onde a divisão interna ultrapassou finalmente o plano ideológico para se tornar numa extremada guerra civil. Órfã no conflito entre os Estados Unidos e os “Estados Livres” que procuram distanciar-se das políticas opressivas da União, Manhattan é agora uma terra de ninguém onde quatrocentas mil pessoas tentam sobreviver aos atiradores furtivos, aos bombardeamentos e à aparente falta das mais básicas condições de vida. DMZ é a história de algumas dessas pessoas vista pela óptica de Mattie Roth, um operador de câmera que é o único sobrevivente duma equipa de reportagem vítima duma emboscada.

Após esse regresso traumático à cidade onde vivera em criança, Mattie é acolhido por Zee, uma estudante de medicina que, relutantemente, resolve mostrar-lhe o dia-a-dia dos habitantes locais, tal qual como ele é, sem filtragens editoriais das estações de notícias vinte e quatro sobre vinte e quatro horas para quem ele trabalha. Tal como Mattie, quase todo o seu equipamento sobreviveu e ele encontra-se na posição (nada) invejável de ser o único jornalista em Manhattan que pode contar a verdade sobre a vida na terra de ninguém. E isto, em vésperas de uma massiva invasão militar por parte do governo.

Brian Wood confessa ter-se inspirado nos acontecimentos do Onze de Setembro para criar esta nova série que, como é característico do autor, não se esquiva às leituras políticas e ao activismo social que marcam algumas das suas obras anteriores como, por exemplo, “Channel Zero”. Wood interessa-se principalmente pela condição humana da América moderna, e é isso mesmo que ele promete pôr à prova em DMZ. Habituados que estão a ver a guerra pela televisão, como será que os americanos reagem a uma guerra no coração da nação? Até que ponto serão os nova-iorquinos diferentes das populações árabes ou africanas onde a guerra se arrasta há décadas, alimentada e incentivada pelas indústrias de armamento dos países ricos? No fundo, quão humanos serão os americanos quando são nas suas casas que as bombas caem?

De alguns dos apontamentos dessa humanidade, já mostrados nos primeiros dois números, destaco apenas o do amor surgido entre dois atiradores furtivos. Ele, desertor dos marines exilado em Manhattan. Ela, uma rebelde dos Estados Livres estrategicamente colocada no topo dum prédio de Jersey. Separados pelo East River, os dois apaixonaram-se através das miras telescópicas das armas de precisão de cada um, e agora disparam entre si bilhetes de amor rabiscados à pressa.

Falta falar da arte, partilhada por Brian Wood (ele próprio um designer de sucesso), com o artista italiano Riccardo Burchielli, naquilo que será uma mescla bem casada do estilo fotojornalismo urbano de um e do look mais europeu de outro, acrescentando ao ambiente final as cores do veterano Jeromy Cox. Visualmente, faz lembrar alguns filmes de guerra recentes, principalmente o “Black Hawk Down” de Ridley Scott, embora Ridley Scott talvez gostasse de ter um director de fotografia que lhe garantisse um resultado tão bom quanto o verificado em DMZ.

Nota 7 em 10.

Nuno Lopes


FELL

Warren Ellis fez há tempos um desafio às editoras e a possíveis artistas interessados: Criar uma série de banda desenhada regular, sem super-heróis, em que cada número tivesse dezasseis páginas de história com princípio, meio e fim, às quais se acrescentariam material referente a cada história. Além disso, cada número teria de ser vendido a $1,99, o que é menos um terço do preço actual dos comics mensais. A ideia era contrariar tendências que Ellis considera nocivas à agregação de novos leitores, entre elas o preço cada vez mais elevado dos comics, o facto das séries mensais geralmente apresentarem uma narrativa descomprimida que leva a que uma história seja contada em quatro, seis ou mais números (dificultando a entrada de novos leitores), e provar que a indústria dos comics não tem de ser só gajos musculados de capas ao vento vestidos em collants.

Ben Templesmith, ilustrador indy consagrado pelo seu trabalho em “30 Dias de Noite” (publicado entre nós pela Devir) aceitou o desafio. Apresentaram o projecto à Image e assim nasceu “Fell”. Os resultados não podiam ser melhores. Admitindo que um projecto assim nunca venderia tanto quanto, digamos, o último número de “Uncanny X-Men”, “Fell” consegue superar as vendas de algumas séries regulares da Marvel ou da DC e, mais importante ainda, consegue atrair às lojas especializadas muitos leitores novos, especialmente do esquivo sexo feminino, em busca do “single” a baixo preço.

“Fell” é a história dum detective de homicídios chamado Richard Fell, cuja transferência de um departamento para outro o obriga a atravessar a ponte para Snowtown. A cidade é capaz de ser a personagem principal da série, um lugar negro e desesperado, cheio de personagens igualmente negras e desesperadas capazes do pior e do pior ainda. Os seus becos são violentos, os seus prédios de apartamentos escondem horrores indizíveis, e até gorduchas mulheres religiosas podem ser potencialmente letais, mas Richard Fell não consegue evitar sentir-se em casa. No seu fato de cangalheiro e cabelinho louro bem tratado, tatuagem pretensamente mágica no pescoço oferecida por uma bartender desequilibrada, Fell tentará levar a lei e a justiça a uma cidade que se ri na cara de tais dispensáveis noções.

A arte de Templesmith é negra, mas luminosa. Talvez luminosa seja o termo errado. O que eu quero dizer é que brilha no escuro. É radioactiva. Cores de néon em fundos sombrios em ambientes opressivos contra backgrounds que parecem miragens do que deviam ser realmente. Tudo isso aplicado ao exigente formato de nove painéis por prancha, com a narrativa visual a ganhar muito ritmo e fluidez, até porque a história tem de ser fazer em dezasseis páginas. Mas sem pressas. E o argumento é vintage Ellis. Diálogos de cortar à faca, crimes de fazer arrepiar as unhas dos pés, personagens muito estranhas, muito seguras na forma como agem e reagem numa cidade onde já não mora a moral nem o arrependimento, e o remorso acabou de receber ordem de despejo do senhorio.

Na minha opinião, “Fell” é genial. Não só porque cumpre todos os pontos prometidos da sua filosofia em termos de mercado, mas porque criativamente é dos melhores trabalhos de ambos os autores envolvidos. O facto de cada número trazer uma história completa apelará a novos leitores, já que estes não são sobrecarregados com a necessidade de saber o que aconteceu nos números anteriores para se perceber o que está a acontecer. Basta saber que o detective louro se chama Fell, e que em Snowtown se cometem as maiores atrocidades.

Nota 8 em 10

Nuno Lopes


BLACK WIDOW, Volume 1

Natasha Romanova, a. k. a. Black Widow. Ex-bailarina. Ex-agente do KGB. Ex-super-heroína. Ex-agente da SHIELD. Um currículo demasiado intricado e misterioso, em que as únicas constantes poderão mesmo ter sido o ruivo natural do seu cabelo e a facilidade com que fazia inimigos por onde quer que passasse. Aqueles que ela não matou enquanto operacional hiperactiva, agora reemergem para a matar a ela, tal e qual como vem estipulado n’O Grande Livro das Regras da Espionagem e do Recalcamento.

Eternamente jovem e ainda com a figurinha de ampulheta, Natasha planeava viver os anos de reforma na clandestinidade que as paisagens desoladas do Arizona lhe ofereciam, tendo a insónia como penitência e substituta do sono, e o montanhismo como antídoto para as noites em branco. Quando um turista louro leva a cabo uma tentativa de assassinato espontâneo da sua pessoa numa estrada convenientemente perdida, a Viúva Negra desconfia que o passado tenta uma vez mais tecer a sua teia à sua volta, da pior maneira possível. A violência regressa à vida de Natasha e, como sempre, ela acabará por ser a responsável por grande parte da sua intensidade.

Esta é a premissa da nova mini-série da Black Widow e, admitindo que não seja sequer muito original à partida, a forma como o escritor britânico Richard K. Morgan mete mãos à obra torna a história numa leitura viva e entusiasmante. Os diálogos estão lá, e o ritmo também, e a direcção da história não é totalmente evidente neste primeiro número, o que é sempre bom numa história de espionagem e suposta vingança. É a primeira tentativa no campo dos comics books pelo galardoado autor do romance noir futurístico “Altered Carbon”, que recebeu o prémio Phillip K. Dick em 2003. E, a julgar apenas pelo primeiro número desta estreia, podemos estar na presença de um talento que seria válido, e até necessário, para o meio. Há muito tempo que não chegava ao fim de um comic book com aquela sensação de impaciência, de querer, e não me apetecer esperar um mês inteiro para, saber o que acontece a seguir.

Mas se o argumento satisfaz em toda a linha, o que me levou a comprar este comic, à parte do facto de ter uns trocos soltos a fazerem demasiado barulho no meu bolso da última vez que estive na BDMania, foi a arte do veterano Bill Sienkiewicz. Em “Black Widow”, Sienkiewicz compromete alguma da sua estética mais liberal e tão apreciada, e retrocede algumas casas na direcção do estilo mais clássico dos seus tempos de Moon Knight, mas parando magistralmente a meio caminho, bem a tempo de ganhar em termos de sequência gráfica e storytelling, exibindo à mesma o gosto pelo tracejado e pelos negros que o facto de ser o seu próprio arte-finalista lhe permite manter. Vale a pena ainda notar as cores de Dan Brown que se ajustam ao ambiente vincado já de se criado pela arte de Sienkiewicz, sem parecerem nem redundantes nem ineficazes. Claro que, se Sienkiewicz pintasse esta série, sem dúvida seria um produto final ainda mais atractivo, mas talvez perdêssemos a hipótese de matarmos saudades do traço mais clássico do artista.

Assim como está, “Black Widow” arrisca-se a relançar uma das personagens da Marvel com maior potencial para temáticas mais adultas, e a importar para a indústria mais um escritor de talento do chamado mainstream.

Nota 7 em 10.

Nuno Lopes


 

QUEEN & COUNTRY: OPERATION BROKEN GROUND TP

Não serei mesmo uma daquelas pessoas que aprecie histórias de espiões, confesso. Não é que costume fugir delas a sete pés, se calhar até consumo um número significativo para quem não gosta especialmente do género. Possivelmente, o problema está no facto de eu achar que já li as duas melhores histórias de espionagem de sempre: “O Espião Que Veio Do Frio” do John LeCarré e “Spy Story” do Neil Gaiman, Mark Buckingham e D’Israeli, que vem na compilação “Miracleman: The Golden Age”, da Eclipse. Principalmente esta última.

O menu deste “Queen & Country: Operation Broken Ground”, que encaderna os primeiros quatro números da série mensal do argumentista Greg Rucka, oferece-nos tudo o que uma narrativa da secreta é suposta ter. Como entrada temos uma operacional britânica de seu nome Tara Chace, introduzida clandestinamente no tabuleiro político kosovar, que se prepara para eliminar fisicamente do jogo o clássico oficial russo tresmalhado, fazendo assim um favor à Central Intelligence. Só que nem sempre os mortos se deixam ficar e, apesar de aparentemente a operação ter caído bem, os seus efeitos algo indigestos logo se farão sentir.

E opta-se então pela caldeirada à casa, política, bem condimentada com os ingredientes do costume. Desde os antagonismos pessoais entre os peixes graúdos do departamento, às conversas circunspectas em parques públicos entre espiões de agências diferentes, a história estende-se por toda a receita habitual destas histórias de espiões. O que salta à vista é que toda a gente anda a jogar um jogo, ou vários jogos diferentes ao mesmo tempo, sem saberem realmente muito bem quais são as regras. Quando a vida de Tara Chace é colocada em cheque pelos resultados da operação no Kosovo, as decisões de cúpula são tudo menos transparentes. Um pouco mais ou menos como acontece com as decisões do argumentista.

Esta edição foi o meu primeiro contacto com o trabalho do Greg Rucka e estou-me nas tintas para o bem que dizem dele, e desta série, a realidade é que a história não chegou para me convencer. Os diálogos até nem estão maus, acho, mas a trama é fraquinha, fraquinha, cheia de pormenores demasiado convenientes para que se possa ser surpreendido em algum ponto no decorrer desta história de espiões. Claro, temos um final anti-climático. E a política nestas coisas, como em todas as outras, ganha sempre. Nem vale a pena uma pessoa dar-se ao trabalho de esperar algo diferente.

A sobremesa é a arte de Steve Rolston. Pretos e brancos limpinhos e razoavelmente dinâmicos, só é pena a Tara Chace se parecer demasiado com um homem. Algumas personagens passam um pouco a ideia de serem pais e filhos, ou irmãos, mas o estilo abonecado dos rostos acaba sempre por permitir uma gradação expressiva muito variada que dá para compensar. Rolston exibe também uma excelente capacidade de sequencializar a história, não deixando que a mesma se torne demasiado aborrecida. No fundo, mascarando habilmente a sua principal característica.

Esta é apenas a minha apreciação. Quem quiser outras opiniões, sem dúvida que as poderá encontrar na contra-capa do trade, e todas dirão só maravilhas, como seria de se esperar. Eu próprio fui na conversa e no fim achei tudo muito sem alma, sensaborão. O preço até nem é que seja caro, mas um gajo vem de lá muito mal servido.

Nota 4 em 10.

Nuno Lopes


 

SWAMP THING: EARTH TO EARTH TP

É o quinto volume da saga gótica do Monstro do Pântano, que entra na recta final da magistral interpretação de Alan Moore da personagem de Wein e Wrightson. Os anos oitenta ainda iam a meio quando os comics que perfazem esta compilação saíram nos Estados Unidos, e podemos apenas imaginar o impacto que tiveram naquela altura, quando poucos eram os escritores apostados em escrever super-heróis de temática adulta. Por esse prisma, se Swamp Thing de Moore, Totleben, Veitch, Alcala e Bissette estivesse a sair hoje em dia pela primeira vez, mesmo assim seria uma obra superior a todos os níveis.

Depois do terror lírico do volume precedente, em que a criatura elemental, sempre orientada pelo insondável John Constantine, se viu envolvida numa guerra entre a luz a as trevas, Alan Moore volta à carga com as mensagens ambientalistas românticas que tinham feito parte dos números anteriores. Na ausência do ser do pântano, a sua namorada humana, Abby, é presa depois de divulgadas fotografias dela em poses amorosas com o monstro. Acusada com crimes contra a natureza (irónico) Abby vê-se desprezada pela comunidade, acaba por ir contra as instruções expressas pelo tribunal e foge para Gotham City. Aí, acaba por ser detida e fica a aguardar reencaminhamento para o Louisiana.

O monstro do pântano retorna a casa e encontra-a vazia e fria. Segue os passos da namorada até Gotham e ao descobrir que ela se encontra encarcerada numa prisão humana por delito de amor, muito simplesmente, passa-se dos carretos. E a selva urbana de betão é enclausurada no verde conjurado pelo monstro do pântano. Gotham é vítima da chantagem dele: ou lhe libertam a amante, ou sofrem as consequências. E nem o cavaleiro das trevas poderá valer à sua cidade.

Anda algures escondido nesta história o evangelho hippie dos anos sessenta. O monstro do pântano será o profeta da natureza, o último bastião de autodefesa do planeta, mas também a consciência desta humanidade desmazelada. Toda a run de Alan Moore está repleta de sermões que apelam à harmonia utópica, quase religiosa, entre o Homem e o meio ambiente. Mas também é uma crónica de amor entre uma rapariga de cabelos brancos e uma entidade que é parte integrante do planeta Terra, analogia evidente da paixão de Alan Moore pela mãe-natureza, e em igual parte pelo ser humano em todas as suas imperfeições e glórias.

Rick Veitch, John Totleben e Alfredo Alcala são o veículo perfeito para as fábulas do argumentista. Apesar da componente terror não decorrer tão declaradamente neste volume como nos outros, as ambiências opressivas e sinistras eternizam-se. Absorvem-nos. E quase não notamos diferença alguma, enquanto os três artistas vão alternando entre si e a colorista Tatjana Wood é a única constante. Há uma surpresa no final deste volume, a última história só por si valia o preço da capa e explana todo o talento de Moore para jogar palavras nas imagens e conseguir a fórmula exacta que é o segredo da banda desenhada. Quem o quiser conhecer só terá de comprar este, ou qualquer volume da saga de Swamp Thing.

Nota 9 em 10.

Nuno Lopes


 

GIVE ME LIBERTY

Martha Washington era apenas mais uma criança a nascer em Cabrini Green, um campo de concentração em Chicago destinado à comunidade afro-americana de classe baixa. No Green, os sonhos escasseavam mas a violência chegava para todos. No ano seguinte, perde o pai politicamente insurrecto para as filosofias anti-motim da polícia de choque de uma América em decomposição. Com uma inteligência acima da média, Martha fez-se de louca só para escapar a um destino previsível no gueto. Infelizmente, a vida que a esperava lá fora também não era nenhum mar de rosas. A miséria humana era o denominador comum. Ainda adolescente, acabou alistando-se na PAX, as forças armadas que tentavam resgatar as florestas amazónicas que ainda restavam das garras dos interesses insaciáveis das cadeias de fast-food.

Durante a campanha amazónica, os caminhos de Martha cruzam-se pela primeira vez com os de Moretti, um jovem oficial do PAX calculista e sacana à n potência, capaz de tudo para alcançar os seus objectivos políticos. Regressada da guerra, medalhas ao peito e tudo, Martha continua ao serviço do PAX. Destacada por Moretti para uma missão suicida, acaba por cair nas mãos dos separatistas Apache liderados por um atípico pele-vermelha simpatizante da tecnologia de ponta chamado Wasserstein. Juntos, e com a inestimável assistência duma pequena telepata chamada Raggedy Ann, eles irão tentar salvar a América da ambição desmedida de Moretti, e dos devaneios lunáticos dum Cirurgião-Geral com a pancada das bactérias que mantém o cérebro do Presidente como refém.

Nos tempos idos de 1990, Frank Miller insistiu em mostrar-nos, mais uma vez e com todas as letras, o que ele pensava realmente sobre o futuro da América. E o que mais nos salta à vista é que o sonho americano resultará, invariavelmente, em pesadelo. Para o ilustrar, não foi de modas. Solicitou os talentos de Dave Gibbons, o desenhador perfeito para os grandes argumentistas, já então imortalizado pelo sucesso estrondoso da sua produtiva parceria com Alan Moore em “Watchmen”.

Dave Gibbons poderá não ser um argumentista de excepção, mas naquilo que ele é melhor, os desenhos, é sempre difícil apontar-lhe defeitos. Sempre discreto, trabalha o argumento com uma paciência para o detalhe que roça a veneração. Está muito à vontade em desenhar páginas cheias, pelo que não recorre a grandes painéis chamativos. Ao seu traço sólido que nunca escorrega, juntaram-se-lhe as cores asfixiantes de Robin Smith, contribuição que também deve ser aqui mencionada.

Quanto a Martha Washington, esta é a consequência lógica de um argumento extremamente violento que beneficia ainda dos tempos mais áureos de Frank Miller. O humor sinistro está lá todo, e em grande forma. Na disciplina quase telegráfica e lacónica de escrita, ou na aptidão natural para explorar as ambições humanas e colher tudo o que elas têm de piorzinho, ou na forma como as personagens sabem andar pelos seus próprios pés, o argumentista americano assina neste “Give Me Liberty” mais uma obra-prima. Podendo não estar exactamente à altura do emblemático “Dark Knight Returns” ou mesmo “Elektra Assassin”, obras anteriores, esta não decepciona minimamente os mais acérrimos fãs do autor. Com “Give Me Liberty”, edição da Dark Horse, Miller e Gibbons acabam por criar uma das maiores heroínas que os comics americanos nos ofereceram até hoje.

Nota 8 em 10.

Nuno Lopes


EARTH X TP

Não é Marvels, mas tem muito da sua grandiosidade. Não é Crisis on Infinite Earths, mas explica de uma pernada um universo inteiro, descodificando os mitos que se foram acumulando uns por cima dos outros ao longo dos quase quarenta anos de histórias aos quadradinhos. Claro, quando Stan Lee e os outros carolas se sentaram à mesa para criar as fundações do Universo Marvel não pensaram que as ideias deles estariam relacionadas de uma forma orgânica, incrivelmente coerente, cheia de nuances geniais e originalidade. Só estes anos todos depois é que alguém encontrou nelas a fórmula que fazia tudo bater certo.

Vinte anos depois da última coisa que lemos (qualquer coisa), começa a história de Earth X. Uatu, o Vigia, recruta Aaron Stack, o Homem-Máquina, ou melhor, X-51, para que este o ajude a registar os últimos acontecimentos do planeta Terra. Relutante a princípio, a máquina que julga ter uma alma aceita e, a partir da cidadela do Vigia na Lua, vai relatando o que vê.

O problema mutante resolveu-se por si mesmo, com todos os seres humanos a desenvolverem mutações estranhas e bizarras que os tornaram todos diferentes, todos diferentes. Especula-se muito sobre o que terá dado origem a esse evento, mas Reed Richards arrasta consigo o exclusivo da culpa. Exilado longe de todos, procura a cura para uma experiência sua que deu terrivelmente errado. Mas a resposta está muito mais enterrada do que ele poderia imaginar. E é muito, mas muito mais terrível.

Earth X funciona na perfeição como um tratado filosófico sobre a condição humana aplicada ao Universo Marvel. Parece mais densa do que na verdade é, mas não deixa de ser uma história de e sobre super-heróis incomum que nos oferece mistérios que não sabíamos que existiam, e as respostas aos mesmos apenas servem para revelar novos e suculentos enigmas. Muitas das caras nossas conhecidas marcam presença no desenrolar da meada que Alex Ross e Jim Krueger souberam conceber. Porém, as surpresas são muitas.

Existe um tom apocalíptico na escrita do Krueger, pesado e desesperançado. Mas não se torna deprimente. Pelo menos não ao ponto de impedir que nos deixemos fascinar pela narrativa tocante de X-51 que contrasta com a secura aparentemente indiferente de Uatu. Os diálogos entre eles levam-nos às nossas próprias conclusões e suspeitas, e contam-nos quem foram as personagens que se movimentam na Terra, e como se tornaram no que são hoje. A trama avança lentamente, sempre com muitas surpresas óbvias, como se as coisas que mais nos vão surpreendendo fossem as que sempre estiveram um palmo à frente do nosso nariz.

John Paul Leon é o artista das páginas interiores. Conta a história de forma simples e discreta, sem grandes momentos de brilhantismo. São desenhos muito carregados que exibem um traço grosso e pouco detalhado. Não posso dizer que não preferiria ter Alex Ross a fazer toda a arte, em vez de Leon. Mas já me contento com várias páginas de sketches e ilustrações de Ross que serviram de companhia aos textos em prosa que Krueger incluiu no fim de cada capítulo.

Earth X, em minha opinião, é uma obra de génio que nasceu não só dos conceitos de Krueger e Ross, mas principalmente dos de Kirby, Lee e tantos outros que estavam presentes quando a Marvel nasceu. As ideias de uns complementam as dos outros com naturalidade quase programada. Elevam-se todas ao estatuto de obra-prima de ficção e fantasia que é, indiscutivelmente, o Universo Marvel.

Nota 9 em 10.

Nuno Lopes

 


 

Jimmy Corrigan, The Smartest Kid On Earth.

O título é extremamente simpático para com o protagonista. Porque Jimmy é uma daquelas pessoas com uma mente simples, que a certa altura na vida resolveu parar de desenvolver-se intelectual e emocionalmente. Tem trinta e seis anos de idade. Tem um emprego que consiste em fazer algo de extraordinariamente indefinido num cubículo, num piso qualquer de um edifício de escritórios. Nada de muito excitante. Tem um fraquinho por uma mulher que ainda não reconheceu oficialmente a sua existência. Tem uma mãe, e não obstante viver num lar, a mesma possui a capacidade de o controlar e manipular-lhe completamente a vida graças ao uso habilidoso da chantagem emocional e do telefone. E tem agora a oportunidade de conhecer o pai que nunca teve, o tal que o abandonou e à mãe e que ele passou toda a vida a demonizar.

Chris Ware idealizou um trabalho, que ele confessa ser semi-autobiográfico, que é uma viagem pelas emoções. E nele, como na vida, a mais rara de todas será a felicidade. Porque "Jimmy Corrigan..." não é uma leitura deprimente. É simplesmente arrasadora. Sem ser "tear-jerker", mas com uma crueza impiedosa, Ware conta-nos sobre o encontro de Jimmy com o pai durante o feriado de Acção de Graças, mas vai ainda mais longe. Por meio de flashbacks, conta-nos também a história das gerações anteriores de Corrigans, um relato muito íntimo e humano das lutas travadas com a vida pelos homens que vieram antes de Jimmy. A complexidade emocional de todas as personagens foi trabalhada ao mais ínfimo pormenor. Mesmo a mãe de Jimmy que não passa de uma voz no outro lado da linha, possui os seus tiques e excentricidades exclusivas. E tudo de uma forma perfeitamente credível.

A arte é luminosa, em todas as trezentas e oitenta páginas do livro. Os painéis são arranjados aplicando uma lógica quase matemática aos níveis soberbos de graphic storytelling que Chris Ware evidencia. É uma espécie de realismo de síntese, onde as cenas se desenrolam demoradamente, pelo tempo que for preciso. A expressividade das personagens permite ao leitor descansar da balonagem ou das narrações e mesmo assim captar a mesma quantidade de informação. E Ware adorna tudo dedicando pequenos painéis a pormenores que à partida não julgaríamos importantes para a história, mas que se adequam ao momento. As cores são limpas e uniformes também usadas como meio de expressar emoção, ou de causar emoção.

No geral, esta é uma obra de génio, capaz de competir com outras, do meio dos comics books ou graphic novels. Eleva a indústria e resgata-lhe a honra perante os mais indiferentes vigias do mainstream entertainment. Porque lida com emoções, e traz-nos a todos um pouquinho de cada um de nós, seja num maneirismo de uma personagem, ou nas conversas incrivelmente corriqueiras que elas têm, ou então nas relações interpessoais que descreve. "Jimmy Corrigan, The Smartest Kid on Earth" fica-nos no coração e obriga-nos a re-examinar o nosso próprio QI emocional e a forma como nos damos com os outros. Eu recomendo vivamente. Para quem gosta a sério de banda desenhada, e para quem nunca gostou.

Nota 10 em 10.

Nuno Lopes



 

MAIL ORDER BRIDE GN

Monty, trepando desastradamente pelos seus trinta anos, é geek à moda antiga. Ele próprio reconhece ser um potencial porta-estandarte do movimento do qual, desconfio, muitos de nós fazem parte. Vive rodeado de alusões à juventude, há muito auto-exilado da realidade competitiva dos adultos, e do modus vivendis pré-estabelecido dum mundo que o desiludiu por não cumprir tudo o que lhe prometera. Gere uma loja de comics como forma de se manter enraizado ao passado onde ninguém lhe cobrava a realização dos seus sonhos. A rotina é a bolha de sabão prateada que o resguarda de tudo o que está lá fora.

Como a sua timidez inexpugnável lhe boicotou qualquer tentativa a uma trajectória amorosa normal, a solidão serve-lhe de companhia. Pensando que o amor e as mulheres são iguais às que vemos nos livros e na televisão, Monty resolve encomendar uma companheira por catálogo. Ainda por cima, escolhe uma rapariga coreana, que revela ser tudo menos aquilo que esperava que fosse. Não lhe dá pelo cotovelo, não diz nada parecido com "aloz flito", não é recatada, nem submissa, muito menos tradicional.

Sem ser um daqueles talentos mais visíveis do já de si desconsiderado meio dos comics, Mark Kalesniko (animador da Disney com créditos firmados nos filmes “O Rei Leão” e “Mulan”), deverá mesmo assim ser um dos mais arrojados criadores do graphic storytelling actual. O termo encontra veículo apropriado e faz perfeito sentido na tocante novela gráfica Mail Order Bride, que a Fantagraphics editou em 2001 sem grande estrépito. Mas as verdadeiras obras não se anunciam aos quatro ventos. Descobrem-se.

O que me impressionou mais no livro nem sequer foi a habilidade de Kalesniko em mostrar-nos tudo o que não se vê nas páginas. Mas sim a maneira como a intransigência natural da realidade pura, vista pelo autor, não se compadece com fantasias, nem sonhos, nem anseios das personagens. Todos experimentámos a sensação do quanto nos custa reconhecer que alguns sonhos são miragens. É assim que Kalesniko nos faz atravessar a ponte entre nós e os protagonistas de Mail Order Bride.

Das 260 páginas a preto e branco flexível, o que salta logo à vista é a eloquência da mão do autor que dispensa boa parte da balonização que muitas vezes infesta de forma supérflua os comics. As imagens até não precisam de explicações adicionais e, se por vezes são óbvias no seu significado, outras correm por sua conta e risco de encontro às mais diversas interpretações do leitor. No argumento, Kalesniko é muito seguro e paciente, certificando-se de que os sentimentos das personagens principais são bem vincados, as suas personalidades e o ambiente que os rodeia são retratos fiéis da vida. A acção decorre pausadamente, em páginas cheias de painéis silenciosos, ou com balões, mas sem nunca haver uma sobrecarga de informação. Os diálogos não se estendem infinitamente na mesma imagem.

A rapariga coreana, Kyung, vem para a cidadezinha canadiana evitando um passado
sobre o qual não fala muito, fugindo de um espartilho comportamental esperado das jovens no seu país. Mas o homem com quem casa no mundo novo é tudo menos a ideia estereotipada que ela trouxe consigo dos homens americanos. Mail Order Bride ilustra a vida em comum de duas pessoas que amam a ideia que tinham à partida uma da outra e se esforçam imenso por se adaptar à realidade, bem diferente. E, no entanto, com tantos pontos em comum. Lê-se como se fosse um bom filme, um clássico que nunca nos importamos de rever, na esperança de descobrirmos coisas novas, que não absorvemos durante o primeiro contacto.

Nota 9 em 10.

Nuno Lopes


 

ELEKTRA ASSASSIN TP

Talvez seja o melhor trabalho de sempre do Frank Miller para a Marvel.

E eu até poderia consumar esta crítica aqui mesmo porque, convenhamos, estaria tudo dito. Por mim, terminava, muito obrigado, boa noite a todos. Não há muito que eu consiga dizer que possa transmitir fielmente a impressão que ler, e reler, Elektra Assassin produz num velho apaixonado, por vezes descrente, dos comics. Por outro lado, seria uma enorme maldade, porque Miller não criou esta obra-prima sozinho. Teve ajuda, e que ajuda: Bill Sienkiewicz.

Elektra Assassin é assim como um puzzle, tanto visual como narrativo. As distintas fórmulas de narração trazem-nos quase sempre uma oralidade entrecortada, frases inteiras contidas em várias caixas diferentes que flutuam sobre a arte de Sienkiewicz quase livremente, como balões. A própria arte tem esta característica, metamorfoseando-se em diversos géneros quase de imagem para imagem, duma página para a outra, sempre mudada e estranha. As personagens são obviamente loucas e apaixonadas, perdidas nos seus papéis aos quais se abandonam cheias de empenho. Os capítulos são desiguais entre si, todos eles contam uma parte muito diferente de uma história em tudo muito diferente. Tudo em Elektra Assassin, argumento, arte, narração, personagens, capítulos, tudo são peças de um puzzle que só faz sentido se as juntarmos a todas em associações improváveis.

Tudo começa com Elektra amnésica, internada a contra-gosto num manicómio, numa hospitaleira república das bananas na América Central. Há um demónio sobrenatural do passado dela que a atormenta, em meio às tripes alucinógenas que lhe são administradas por via intravenosa. Em evidente estado de psicopatia, ela foge do ninho dos cucos e pressente a presença nefasta dessa criatura na fauna política de San Concepción, e talvez até na dos Estados Unidos da toda-poderosa América. Ela fará tudo para se livrar, e ao mundo, d’A Besta, apesar dos esforços esmerados do agente da SHIELD Garrett para lhe deitar a mão. Infelizmente, Garrett não sabe da missa um terço e nem consegue sequer contrariar a sua crescente atracção pela ninja parcamente vestida de vermelho.

É Frank Miller nos seus tempos áureos, bem lá em cima, no topo da cadeia criativa da pirâmide confortável que era a Marvel Comics da altura. É Bill Sienkiewicz a demolir um a um todos os estereótipos modorrentos que lhe apareceram pela frente e que foram de tal forma apanhados de surpresa que nunca souberam ao certo o que lhes aconteceu. É Elektra, Deusa da Morte, emancipada da égide cornuda do Homem Sem Medo, finalmente livre dos trâmites prepotentes da Comics Code Authority. É a criatividade desenfreada que se conquista quando se juntam todos estes elementos no mesmo local à mesma hora, e nos fascina com cada frase e cada imagem e cada vez mais intensamente que a anterior.

Em Elektra Assassin, nós somos tão escravos do destino da mercenária como o agente Garrett o é da sua beleza. A escrita de Frank Miller é um sonho tornado realidade na altura certa. A arte de Bill Sienkiewicz é tudo aquilo que gostaríamos de ser quando fôssemos grandes. É uma luz que continua a brilhar sobre os comics desde 1986 e enche de vergonha a recente adaptação ao cinema da personagem.

Enfim... Talvez seja o melhor trabalho de sempre do Frank Miller para a Marvel.

Nota 10 em 10

Nuno Lopes


 

RUNAWAYS
A série é escrita pelo Brian K. Vaughan, que vem desenvolvendo uma das ideias mais originais da história recente da Marvel, adaptando ao seu mythos o clássico campo de batalha da generation gap.

É a história de seis jovens de famílias abastadas da California: Alex Wilder, uma mistura entre o Ben Harper e o Ben Harper, é o gajo das ideias. Gertrude Yorke, novata no intelectual-bitchismo, seria uma Christina Ricci se esta tivesse um velociraptor de deslocação cronológica como inusitado animal doméstico. A espigadota Karolina Dean, loura natural de Beverly Hills, é uma shopping-center girl do outro mundo. Chase Stein, o mais velho do grupo é também o mais jovem. Molly Hayes é a mais miúda, naquela idade em que o corpo começa a fazer coisas realmente estranhas e ninguém parece muito interessado em lhe falar sobre isso. E Nico Minoru, a neo-gothette de serviço, interesse amoroso de pelo menos dois dos outros membros do grupo.

A única coisa que todos eles têm em comum é aquela altura do ano em que os pais se encontram para organizar eventos de angariação de fundos para obras de caridade. Ou, pelo menos, é isso que os jovens pensam que os pais fazem à porta fechada. Movidos pelo tédio, resolvem espiar o que se passa na reunião, e acabam por ver mais do que desejariam. Se o vestir excêntrico em privado até nem é causa para alarme ali tão perto de Hollywood, o sacrifício de uma jovem prostituta já é razão para arquear sobrancelhas e suficiente para confirmar os piores temores de todos os adolescentes: Os pais são realmente super-vilões.

Os diálogos soltos e espirituosos (fazendo lembrar Buffy) são só um dos fortes de Vaughan. Os primeiros números de "Runaways" chegam para solidificar as personagens e marcar o ritmo da história, sempre com algumas surpresas pelo meio. Conforme Alex e os amigos vão descobrindo mais sobre os pais, nós vamos descobrindo mais sobre os jovens fugitivos, e as suas novas capacidades. Sem se tornar muito formulaico, o argumento vai encontrando maneiras diferentes e interessantes de revelar as "origens" e os"poderes" das personagens. É engraçado a forma como, apesar de serem super-vilões determinados a expandir o seu domínio da California para o resto do mundo, os pais de Gert, Molly e dos outros continuam a ser isso mesmo, pais, com aquelas preocupações típicas com "as crianças", mesmo quando as tentam matar. E os filhos continuam a gostar dos pais, mesmo quando lhes atiçam o velociraptor num momento de pânico. De tal forma os jovens ainda gostam dos pais, que um dos membros do grupo em fuga deixa um bilhete revelando estar do lado deles. Quem é o filhinho do papá ou a filhinha da mamã disposto/a a trair os amigos?

O estilo visual luminoso do desenhador Adrian Alphona torna a série menos pesada, dando-lhe referências cartoon e grafittescas muito hip-hop e muito...(adjectivo odioso, eu sei) ..."jovem". Embora a arte siga o editorial "onda gigante" da série à caça de leitores mais novos, "Runaways" está preparado para agradar aos leitores que já compram comics há muitos anos. Isto porque tem todos os elementos clássicos dos super-heróis do universo Marvel, adicionados ao entertainment mais moderno veiculado pela MTV e pela WB e pela SIC Radical.

"Runaways" é bem capaz de ser a melhor nova série que a Marvel lançou nos últimos anos! E se essa e todas as outras razões que enumerei aqui não servirem para vos despertar o interesse nas aventuras de adolescentes que fugiram de casa porque descobriram que os pais são super-vilões, lembrem-se disto: Podia muito facilmente acontecer convosco!

Nota 7 em 10

Nuno Lopes


KABUKI: CIRCLE OF BLOOD TP

Quando tinha apenas vinte e um anos, David Mack apresentou, de forma nada menos que épica, o seu talento refrescante ao meio geralmente indolente dos comics americanos com esta sua primeira obra. Apesar da sua juventude, quase tudo em “Kabuki: Circle of Blood” vem acompanhado de uma maturidade incomum, partindo de um argumento relativamente complexo e muito detalhado até chegar à arte, que se presta a composições sequenciais quase sempre bem sucedidas. Entusiasta da cultura nipónica, Mack insere-a com sabedoria numa história passada numa Kyoto tecnofeudal dum provável futuro-próximo cabalístico, e nunca se deixa ficar apenas pelas melhores intenções. “Circle of Blood” é aquilo que acontece quando todas as boas ideias de um autor se tornam realidade à primeira.

Kabuki é uma mulher assombrada pelas memórias da sua mãe, tragicamente tocadas a desgraça. É também uma das oito agentes de campo da Noh, uma agência policial proactiva e extremamente zelosa do equilíbrio existente entre os poderes políticos mais ou menos viciados e o submundo perverso da Yakuza, sempre jogando mão dos assassinatos estratégicos nas pessoas daqueles elementos que tenham a audácia de se porem em bicos dos pés e atentarem contra a estabilidade vigente. Kabuki é, portanto, uma hábil assassina, de geladas virtudes nijinskianas, capaz de executar com graciosidade todos os alvos que Oni, o líder da máscara demoníaca do círculo de Noh, lhe aponta. E nesses perigosos enredos da política paralela e do crime organizado, Kabuki irá encontrar as respostas para um passado e as pistas para o futuro.

A arte tira partido de todas as potencialidades descritivas visuais do modelo da narrativa gráfica, não apenas para contar uma história de segredos do passado, mas também para nos fazer senti-la deslizar de uma forma lógica, quase sem espaços vazios perceptíveis. Mack preocupa-se em manter o seu estilo visual em constante movimento, e em dar-nos sempre perspectivas originais e curiosas sobre as cenas, para mostrá-las com uma maior astúcia de significados. Alguns painéis, como os flashbacks da vida da mãe da personagem principal, acabam por sair belíssimos poemas pictóricos. Certas opções tomadas para certas sequências funcionam surpreendentemente bem. Como quando Mack joga com as composições de imagens que se cosem a uma insuspeita imagem seguinte como se a maior das subtilezas fosse a escolha mais óbvia e natural de todas.

A escrita de David Mack não se esgota logo nas palavras. Kabuki são as palavras combinadas com as imagens, as imagens doseadas com outras imagens, e as palavras à volta de palavras. Lirismo a preto a branco e à velocidade duma história que se lê tranquilamente. Os protagonistas são as emoções das personagens principais. A alma de Kabuki, uma assassina fria e imperturbável, enche a narrativa de texturas que à partida não fariam parte do catálogo emocional duma personagem assim. As páginas de “Circle of Blood” são o mapa para a alma de Kabuki, cartografada por David Mack a uma escala tão pormenorizada que nos faz crer que estamos lá, com ela. Mas as personagens coadjuvantes também estão lá, gravitando muito próximas dela, e totalmente expostas ao leitor. Tudo escrito a uma cadência de poesia solta que acompanha a arte numa coreografia genial.

“Circle of Blood” é apenas o primeiro de vários volumes da saga Kabuki que valeram a David Mack nomeações para os Harvey, os Kirby, os Eisner e os International Eagle Awards, e que ele continuou a desenvolver à medida que aprimorava os seus talentos. Sendo uma primeira obra, este livro traz já consigo a capacidade reconhecível dos clássicos.

Pontuação: 9 em 10.

Nuno Lopes.


BLADE OF THE IMMORTAL: BLOOD OF A THOUSAND

Este é um dos produtos manga mais aclamados tanto internacionalmente como no Japão, onde se estreou em 1994, trazendo o reconhecimento imediato e merecido ao seu autor, Hiroaki Samura. Apresentado no tradicional preto e branco, com tons, “Blade of the Immortal” é uma história de samurais, quase tradicional, onde a vingança e a redenção são temas populares, sempre muito bem regados a sangue.

Manji é um samurai relativamente insignificante sem grandes códigos morais, sem muitos dos atributos que fariam dele um homem com H grande, convenhamos, mas com uma característica muito especial que não calha a todos. Devido a uma maldição arrevesada, Manji tornou-se imortal. Sentindo-se culpado pelos crimes cometidos na sua vida, e especialmente responsável pelo trágico destino da irmã, Manji faz um acordo com a velha Yaobikuni que o amaldiçoou: matará mil dos piores criminosos em troca da sua mortalidade.

“Blood of a Thousand” é apenas o primeiro dos já muitos volumes da série de Samura, que segue as pisadas de “Lone Wolf & Cub”, a obra máxima de Kazuo Koike e Goseki Kojima. Apesar de se manter aqui e ali fiel a algumas convenções do género, “Blade of the Immortal” inova na linguagem modernizada e na liberdade quase arrogante com que o autor adopta uma postura selectiva em termos do rigor histórico, ou na forma como ele adapta e inventa de raiz disciplinas de artes marciais a seu bel-prazer. Para Samura, a história e as personagens são o mais importante. Detalhes de intransigência histórica seriam algo que o fariam perder tempo e autonomia criativa.

Por isso, os habitantes do Japão quimérico de “Blade of the Immortal” falam de uma forma mais actual, dando uso ao calão urbano reinante com a maior da desfaçatez. Truque esse que funciona perfeitamente, dando origem a personagens interessantes, mais próximas, e muito aliciantes que vivem num argumento arrebatado cheio de humor e amores negros, e filosofias de ponta afiada. Pelo meio, detectam-se algumas ideias surpreendentes e arrojadas, que só lhe caem bem.

A arte, apesar de facilmente identificável como manga, faz parte do movimento que quebra um pouco com as tradições. Deixa de lado os sintomáticos olhos exageradamente grandes. Das linhas mais definidas, podemos apreciar depois painéis em que o carvão parece não ter ainda solidificado completamente no papel. E os momentos fulcrais dos duelos têm honras de páginas inteiras, ou mesmo páginas duplas, que são momentos altos do sentido narrativo impecável de Hiroaki Samura.

Após um prólogo em que ficamos a saber um pouco da história de Manji, é-nos então apresentada Rin. Esta é uma jovem espadachim que prima pela inexperiência e, principalmente, pela sede de vingança. O seu próprio pai, um sensei de um dojo respeitado, fora morto por vingança dois anos antes, e a mãe havia sido levada pelos assassinos. Determinada a vingar o destino de ambos, Rin procura o apático Manji para que este a ajude a desforrar-se. Para o imortal, a vingança de Rin será o primeiro passo na estrada para a redenção.

Não sendo eu um grande fã de manga, apenas “Uzumaki” me captara a atenção antes, gostei bastante de “Blade of the Immortal” e julgo mesmo que esta série tem a capacidade e o ímpeto suficientes para rivalizar com a já referida “Lone Wolf & Cub”. Pelo menos, para uma geração mais nova de leitores do género.

8 em 10

Nuno Lopes.


JOHNNY, THE HOMICIDAL MANIAC: DIRECTOR'S CUT TP

Jhonen Vasquez, e isto confesso que não sabia, é um génio louco. "Johnny,
the Homicidal Maniac: Director's Cut" é a melhor coisa que li nos últimos
meses. Johnny C. é um jovem delinquente que não tem amigos, que se isola do
mundo e mergulha numa psicose auto-justificável de serial killing. Além das
formas criativas que ele usa para despachar (quase) todos os infelizes que
se vêem inquilinos forçados na sua catacumba de horrores, Johnny é um
filósofo, um pensador dos males que assolam a vida moderna, um investigador
profundo da alma humana, a sua, terrivelmente afectada por razões que ainda
não encontrou, ou se recusa a reconhecer.

Vasquez é um autor perturbador e divertido como o diabo, sabe muito bem que
cordas puxar para nos arrepiar ou nos fazer rir. Que personagens devemos
desejar ver mortas às mãos e lâminas de Johnny, e por quais torcer para que
se salvem. Resultados da crueldade insana de Johnny, como a cabeça do
coelhinho pregada na parede acabam aos poucos por ser alvo da nossa afeição
quando, no início, as olhávamos com repulsa (isto se tivermos a cabeça no
lugar) e incredulidade. Mas eu estou a ler sobre um serial killer que também
exercita a sua demência sanguinária em animaizinhos tão inocentes, e dignos
de os presentearmos com sorrisinhos perigosamente efeminados, como um
coehinho? Pois estou, e o pior é que, com o desenrolar das histórias, já
acho aquilo tudo muito normal e até engraçado.

Ouçam, têm de ler por vocês. A arte é magnífica e despretensiosa, como
quando o autor nos avisa que não sabe desenhar em perspectiva, ou explica
uma imagem porque o seu talento não é suficiente para que entendamos o
objecto, para o qual estamos a olhar, sem notas de rodapé. Preto e branco,
caótico e limpinho, desenhos cheios de desequilíbrios e anotações, molduras
crípticas com mensagens subliminares, espaços entre painéis preenchidos por
frases que se estendem em todas as direcções. Parte da arte é da autoria da
personagem assassina, já que esta é um artista de comics frustrado que
rabisca a sua criação, noodle boy, em pranchas loucas e simplistas.

O argumento é brilhante, inteligente e com um humor à inglesa. E tem um fio
condutor, embora no início pareça que Jhonen Vasquez apenas se dedicava a
matar personagens convidadas por dá cá aquela palha. Tem um princípio, meio
e um fim a prometer mais loucura e comportamentos desviantes. Johnny chega a
conhecer o céu e o inferno, fica a saber porque é quem é e porque tem de
fazer o que tem de fazer. E, afinal, existe mesmo um monstro atrás da parede
que Johnny tem de manter molhada a sangue fresco, porque o sangue seco não
consegue manter a tranca eficazmente no lugar.

"No!! Don't leave me, intestinal gas!! Please!! Don't Go! I thought you
loved me!!"

A estas e outras invectivas igualmente brilhantes, eu dou um 9.

Nuno Lopes.


DESOLATION: MADE IN ENGLAND

Para onde vão os espiões quando se reformam? Aparentemente, mudam-se para Los Angeles, mas não por vontade própria. A comunidade de agentes secretos na cidade dos anjos é composta por homens e mulheres que, a partir do momento em que deixaram de ser úteis aos seus governos, ali foram deixados e enfaticamente convidados a fixar residência.

Infelizmente, esta reforma compulsória e geograficamente circunscrita obriga os antigos homens-sombra das democracias ocidentais a procurarem outros meios de subsistência, como é o caso de Michael Jones. Único sobrevivente duma experiência secreta chamado “Desolation Test”, Jones é um ex-agente britânico que em desespero de causa se tornou investigador privado. Como a sua pele se tornou hiper-sensível ao sol desde o teste, e já não precisa muito de dormir, Jones trabalha sobretudo à noite.

Em “Made in England”, Jones é contratado pelo Coronel Nigh para localizar e reaver um precioso artigo de coleccionador que lhe fora roubado e posteriormente usado para lhe extorquir dinheiro. O item em questão parece ser nada mais nada menos que o lendário filme porno de Adolf Hitler. E na lista de suspeitos surgem os nomes de qualquer uma das três duvidosas filhas do velho coronel.

A arte de J. H. Williams III em “Made in England” é fundamental no estabelecer desta L. A. desconhecida, assombrada por figuras trágicas que a vida secreta mastigou e ali cuspiu. Graficamente tensa, Desolation Jones é uma série que mistura o noir com o punk-goth e a brutalidade de Tarantino, e J. H. Williams III acerta no alvo em cada um dos painéis. As pranchas adornadas com um design muito bem arrumado e traços muito realistas com um excelente sentido de sombreado são alguns dos seus pontos fortes, que as cores de José Villarubia complementam nas transições de uma cena para outra, imprimindo o compasso sequencial rigoroso como é costume dos scripts de Warren Ellis.

Desolation Jones é mais uma criação de Warren Ellis, com mais um protagonista na linha das personagens carismáticas, rudes e irremediavelmente danificadas que se prestam muito bem ao estilo narrativo de um dos mais prolíficos argumentistas dos comics americanos. Nesta série publicada pela Wildstorm, Ellis mergulha na fronteira entre os territórios de Raymond Chandler e Phillip K. Dick, emprestando-lhe a sua muito pessoal receita de observação cultural, humor seco, diálogos lancinantes, personagens oblíquas e enredos onde pouco é realmente aquilo que parece.

As personagens que se movimentam à volta de Jones são quase todas ex-agentes secretos a tentarem encontrar um novo rumo para uma vida nova como zombies enjaulados na meta-urbe de Los Angeles. A angústia inabalável de Michael Jones agride a percepção do leitor de forma mais intensa que os súbitos e imprevisíveis picos de violência (ele não consegue sentir dor, mas conhece mil e uma maneiras de a infligir a terceiros), aos quais recorre este pálido espião anteriormente ao serviço de sua majestade, numa narrativa cheia de dureza e curvas apertadas que apanhará o mais atento leitor completamente desprevenido.

Nota 7/10


CASANOVA: LUXURIA

A história de Casanova Quinn é muito complicada, com um passado, um presente e um futuro constantemente sujeitos a revisões periódicas e influências externas nem sempre sob controlo do próprio protagonista. A sua família, de certo modo, é quem faz a lei no mundo louco de Casanova. O pai Cornelius é o chefe da E.M.P.I.R.E., uma organização de manutenção da paz, e a irmã gémea, Zephyr, é a sua melhor operacional. Casanova degenerou ligeiramente do negócio de família e tornou-se um ladrão. Compreensivelmente, isso criou alguma clivagem entre ele e o pai, que nem a morte da irmã, sob circunstâncias misteriosas, veio a resolver.

O argumentista, e mente por detrás desta nova série da Image, é Matt Fraction. Quando Warren Ellis idealizou o formato “Fell”, séries de banda desenhada com dezasseis páginas de história com princípio meio e fim, a um terço do preço dos comics normais, Fraction terá sido o primeiro a seguir-lhe o exemplo. Mas, para animar as coisas, resolveu inocular o seu projecto com tantas ideias e detalhes que essas dezasseis páginas à primeira vista se tornam numa leitura vertiginosa.

Zephyr, a bela e mortífera irmã do nosso anti-herói, foi assassinada enquanto investigava um distúrbio no fluxo do espaço-tempo. Casanova também tem os seus próprios problemas. A tentativa de raptar voluptuosa Ruby Seychelle (que ele não sabia ser uma andróide) e entregá-la a Fabula Berserko (três monges zen fundidos numa única criatura disforme) correu mal e agora Casanova tem toda a gente à perna. Berserko quer matá-lo por um trabalho mal feito e Sabine Seychelle colocou a sua cabeça a prémio como retaliação por ter causado a destruição de Ruby (mesmo dispondo de outros clones da andróide). Numa tentativa de se safar, Casanova acaba por trair as forças da autoridade do pai, sendo recrutado por Newman Xeno, uma múmia de óculos escuros e fatinho Armani que dirige a W.A.S.T.E., organização criminosa e verdadeiro furúnculo no rabo da sociedade. E isto é só o começo.

“Casanova” está pejada de referências pop, sejam letras dos Beatles ou referências ao guarda-roupa de Gigantor. Fraction esforçou-se por estilizar os diálogos e as técnicas narrativas fogem um bocado ao que é normal ver-se num comic americano. Provavelmente, nem toda a experimentalização funciona à primeira vista, mas acaba por encaixar e fazer todo o sentido com o decorrer da leitura (ou de segundas leituras, porque é muito difícil assimilar todas as ideias com uma única passagem). Os intervenientes da história são arquétipos virados do avesso mas à mesma importações perfeitamente reconhecíveis de géneros estabelecidos, desde James Bond a Star Wars, passando por temas claramente Wellsianos.

Impressas a preto e branco e verde azeitona, as pranchas encravam tanta informação quanto é possível encravar numa história tão pluri-direccional quanto “Casanova”. E depois o artista ainda lhes junta cinquenta por cento mais. Não sendo o lápis de Gabriel Ba o mais detalhado do meio (e não podia ser), o look à anos sessenta permite uma estética que deixa os vazios à capacidade de interpretação visual do leitor que posteriormente preencherá os espaços instintivamente. Gostei bastante da arte do Gabriel Ba (brasileiro), que não conhecia.

“Casanova” de Fraction & Ba é um excelente seguimento a “Fell” de Ellis & Templesmith, e só espero que outros criadores surjam com novas séries e ideias neste formato. O baixo preço é um dos apelos para experimentar “Casanova”, mas é a história furiosa e as personagens hiperbólicas que vos farão esperar ansiosamente pelos próximos episódios.

NOTA 7/10


HUMANKIND

Tony Daniel publicou através da Top Cow o seu último projecto independente, depois de um ano de ausência dedicado a estudar a arte do scritpwriting. Um ano depois, e os argumentos dele continuam a não prestar. Humankind é a prova de que o curso de um ano foi dinheiro mal gasto. E ainda me perguntam porque é que eu leio tanta porcaria. De outro modo, como poderia falar mal das coisas?

Humankind conta a história de um planeta muito parecido com o nosso, chamado Thera Os theráqueos são uma raça avançada que há centenas de anos observa a nossa patética civilização de tal modo que começou a emulá-la. Ao ponto de, lá pelo meio da história, o autor incluir um barco de piratas e uma arena de gladiadores. Estes theráqueos, apesar da sua fantástica tecnologia, incrivelmente ainda precisam de escravos. E resolveram clonar humanos (através das amostras bípedes recolhidas pelos seus discos voadores no nosso planeta ao longo dos tempo) para lhes tratar da roupa suja e da libido.

Mas estes humanos são como coelhos, e reproduzem-se a um ritmo anormal, e a sociedade theráquea em breve fica atulhada deles. Segue-se a inevitável luta de classes, e Alia Sparrow é uma detective humana seminua que pertence ao Departamento de Investigção de Crimes Humanos. A missão dela, e da sua colega robomorphica Greta, é capturar um fugitivo que chegou a Thera vindo da Terra e que, sem saber carrega dentro de si um vírus que poderá extinguir toda a raça humana em ambos os planetas.

Isto, posto desta maneira, até parece uma boa ideia. Mas Tony Daniel não sabe escrever. O melhorzinho da sua carreira a solo ainda é a série “The Tenth” original, e este “Humankind” está a anos-luz, tanto em escrita como na arte. As mulheres seminuas já não têm aquele apelo, os monstros são despachados às três pancadas e o graphic storytelling é sacrificado no altar dos pin-ups em honra de obscuras splash pages e da lei do menor esforço. Tony Daniel ainda não conseguiu evoluir para lá do mero T&A que o resto da indústria tão esforçadamente tenta sacudir de cima dos ombros, sendo a Top Cow um dos seus últimos redutos.

NOTA 3/10


THE EXTERMINATORS

Henry James pagou a sua dívida à sociedade e à volta aceitou um emprego na empresa de desinfestação de Nils, o novo marido que a mãe arranjara enquanto ele cumpria a sua pena. O trabalho não é grande coisa, mas sempre é um ordenado ao fim do mês. Henry é emparelhado com A.J., um jovem exterminador tagarela que gosta de se injectar com o insecticida que usam para matar baratas, e os dois acorrem a uma chamada aflita de uma inquilina num prédio degradado dum bairro social de Los Angeles. O que começa como um corriqueiro trabalho de desinfestação dará origem a algo muito mais aterrador que poderá pôr em causa a própria civilização humana.

Simon Oliver escreve o argumento desta série de banda desenhada que faz parte das novidades da grelha, digamos assim, que a Vertigo lançou no início de 2006 com algum sucesso. Desconheço por completo o background deste autor mas, pelo que posso ver nesta história inicial de “The Exterminators”, há um humor negro que permeia toda a trama e dá o mote à escrita. Os maneirismos e excentricidades de cada personagem são bastante originais e as conversas entre elas são deliciosas, e surpreendentemente eruditas. Todos os funcionários da empresa “Bug-Bee-Gone” têm opiniões fortes sobre os mais variados sentidos da vida e estas não podiam ser mais distintas entre si.

Tony Moore, artista que recentemente abrilhantou as páginas de “The Walking Dead” com o seu estilo diligente, divide com Oliver a autoria desta série original. Moore desenha pacientemente milhares de baratas, quase página sim, página não, além da ratazana mais feroz que me lembro de alguma vez ter visto. Como leitor, só tenho de lhe agradecer pela quantidade incrível de detalhes que coloca nos desenhos, fazendo um retrato fiel das comunidades los angelinas menos favorecidas, tão vítimas dos senhorios como dos bichos com quem partilham os apartamentos a cair aos pedaços.

Sendo sem dúvida uma crítica dentuça à sociedade humana, e com muitas patas para andar, a primeira história “Bug Brothers” revela que o Draxx, o novo insecticida que Henry e os colegas usam para exterminar as pragas, pode na verdade estar a causar terríveis mutações nos insectos, e a torná-los mais fortes. Tudo parte de uma estratégia de marketing visionária da empresa que comercializa o Draxx (para a qual trabalha a namorada de Henry), na esperança de criar um mercado acolhedor para os seus produtos. Cegos pela expectativa de dinheiro fácil, os executivos desconhecem que as suas acções podem ter criado uma nova espécie de baratas que ameaça cobrir o mundo com as suas antenas gulosas.

The Exterminators é uma série divertida e arrepiante, com um enredo sólido e personagens bem delineadas cheias de pormenores fascinantes, como Kevin, um exterminador que tem o hábito desagradável de comer insectos, ou Stretch, um cowboy pouco comum com uma perspectiva zen muito própria sobre a vida e a guerra travada todos os dias com as pragas, sejam elas de duas ou muitas pernas. As surpresas nesta série são muitas, vivem nas paredes, sob as carpetes, nos cantos escuros ou debaixo dos soalhos. Fogem a esconder-se quando se ligam as luzes e sibilam quando nos vêem porque este é o mudo deles. Nós somos apenas intrusos.

NOTA 7/10


BIGFOOT

Foi a primeira coisa que li da editora IDW, especializada nos temas clássicos do terror. O argumento de Steve Niles e do vaqueiro do creepy metal Rob Zombie não é mau, embora seja um bocado preguiçoso. Se calhar, até de propósito. O que temos em “Bigfoot” é uma reconstituição nostálgica, sem manias nem van helsinguizações ocas e desnecessárias. Há um monstro que mata campistas na floresta. E Richard Corben desenha. Quem precisa de mais? Assim como está, está bom, mas depende muito do gosto de cada um. Sem dúvida haverá melhores comics no mercado, mas se de vez em quando sentirmos aquela urgência em consumir entertainment acéfalo onde as sombras produzam monstros e as pessoas morram num mar do seu próprio sangue, então, a IDW tem precisamente o que precisamos.

“Bigfoot” tem pouca originalidade, as personagens são quilos e quilos de carne para canhão bidimensional, e o argumento é igual a todos os filmes de monstros série b que já vimos. Mas não deixemos que isso nos desmotive de ler esta mini-série ou trade (caso venha a sair um, e virá com certeza). A arte de Richard Corben também já teve momentos mais brilhantes, mas ele continua com aquelas proporções divertidas e a atribuir aos seus desenhos aquela qualidade de plasticina muito stop-motion que nem está mal pensada e até enche as páginas de uma ingenuidade vivaça.

Deve haver outras maneiras de se escrever um conto de terror com o Bigfoot, mas se calhar, deixava de ser este Bigfoot, o clássico monstro das florestas homólogo do abominável homem das neves. E se calhar existem artistas que seriam capazes de ilustrar a história de uma forma mais sofisticada, mais sombria. Mas não foi preciso. Assim, não só entretém como ainda abre caminho para o lucrativo marketing dos peluches.

NOTA: 5/10


BATMAN & DANGER GIRL

Algumas das mais bem conseguidas representantes do desusado T&A aportam em Gotham City por obra e graça de Andy Hartnell e Leinil Francis Yu, um dos artistas que mais gosto de ver dar vida a argumentos ligeiros. Abbey Chase e as suas amiguinhas da Danger Girl fazem-se ao suculento bife financeiro que é Bruce Wayne. Claro, Bruce Wayne é também o Cavaleiro das Trevas, esse ícone indefectível da justiça e das relações suspeitas com rapazinhos.

O Joker e respectiva namorada tresloucada Harley Quinn estão no mercado para comprar parafernália de controle mental de massas. O vendedor é Donovin Conrad, um conhecido inimigo das operativas Danger Girl, que o perseguem até ao quintal das traseiras do Batman em nome dos bons velhos tempos. O argumento é mais ou menos isto, mas com muitos palhaços à mistura.

Andy Hartnell escreve tudo com muito humor, e bem conseguido, para admiração minha. Batman retém a sua dignidade no meio duma torrente de one-liners, chegando mesmo a esgrimir-se de ironias com as suas lúbricas parceiras de aventura, ao ponto de nem sentir a falta de Robin no meio de tantas glândulas mamárias de banda larga. O Joker, como sempre, é quem tem as melhores deixas desta história.

A arte do filipino Leinil Francis Yu é que é capaz de ter saído chamuscada devido à tendência pouco natural que o arte-finalista Gerry Alanguilan tem para carregar no pincel. Yu desenha um Batman de queixada, muito enrugado, e um Joker carrancudo e de nariz protuberante que talvez não lhe fique muito bem. Mas é tudo feito com bom gosto, e o resultado final é muito bom. Surpreendentemente bom, tendo em conta as personagens de estilos antagónicos. Um crossover insólito mas de qualidade.

NOTA 5/10

 

 


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